Esta semana encontro-me na Indonésia, mais precisamente em Malang, no leste da ilha de Java, onde tive a honra de proferir o Keynote Address na cerimónia de abertura da BEFIC 2025 – The 4th Brawijaya Economics and Finance International Conference, na Universidade Brawijaya. Esta universidade, com cerca de 75 mil estudantes, é a maior da Indonésia e uma das mais prestigiadas deste vasto país asiático, composto por 17.508 ilhas – das quais cerca de 6.000 são habitadas -, onde tenho também o privilégio de ser Professor Convidado.

Malang fica a mais de 13.000 quilómetros de Portugal, literalmente, do outro lado do mundo. E, no entanto, há por aqui ecos da nossa presença histórica: vestígios ténues, mas persistentes, de uma ligação que remonta ao século XVI, quando navegadores portugueses chegaram a estas paragens em busca das cobiçadas especiarias. Na altura, não existia ainda uma “Indonésia” como a conhecemos hoje, mas sim um conjunto de reinos e sultanatos, muitos dos quais estabeleceram contacto diplomático, comercial e, por vezes, bélico, com os europeus recém-chegados.

O arquipélago das Molucas, em particular, ficou marcado pela presença portuguesa. Conhecidas como as Ilhas das Especiarias, as Molucas, em especial Ternate, Tidore e Ambon, foram palco de confrontos e alianças que perduraram por décadas. Portugal controlou partes significativas destas ilhas até ser gradualmente substituído pelos holandeses. Ainda hoje, por toda a Indonésia, subsistem traços da cultura lusa, seja em nomes de famílias, práticas religiosas ou palavras herdadas da nossa língua.

É fascinante escutar, aqui e ali, termos como meja (mesa), gereja (igreja), mentega (manteiga), bendera (bandeira), sabun (sabão), boneka (boneca), jendela (janela), kemeja (camisa), sepatu (sapato), almari (armário), garpu (garfo) ou keju (queijo), palavras indonésias de origem portuguesa que resistiram ao tempo como testemunhas linguísticas de uma convivência antiga.

Essa influência, embora subtil, é um lembrete de como a língua e a cultura portuguesas deixaram marcas em locais aparentemente distantes, muito para além das fronteiras geográficas de Portugal. É uma espécie de património imaterial que, embora muitas vezes passe despercebido, continua a ligar povos e memórias.

Mas o mais interessante é a forma como essa herança é recebida. Ao conversar com colegas da Universidade Brawijaya, percebo uma curiosidade genuína pela história comum e um apreço crescente pelo papel de Portugal como uma das primeiras nações europeias a interagir com o arquipélago indonésio, o maior do mundo. Não somos vistos como colonizadores dominantes, como os holandeses, mas antes como os primeiros visitantes, com quem se estabeleceram trocas, nem sempre pacíficas, é certo, mas muitas vezes mais horizontais do que aquelas que vieram depois.

Estar em Malang, cidade rodeada por vulcões e com uma energia jovem, é também perceber que a Indonésia de hoje é um país em franco crescimento, vibrante, multicultural e profundamente empenhado no seu desenvolvimento académico e económico. Ao participar nesta conferência internacional, vejo uma juventude interessada em conhecer o mundo, aberta à cooperação e sedenta de conhecimento, e isso inspira esperança num futuro global mais interligado e mais dialogante.

Do outro lado do mundo, afinal, há mais em comum connosco do que poderíamos imaginar!