Há uns anos, um amigo contou-me uma experiência que tinha vivenciado. Tinha por tradição convidar os amigos para um churrasco na sua casa nos fins de semana. Fazia-o uma vez que  tinha uma situação económica estável e condições perfeitas para tais eventos.

Adorava receber amigos. Sentia que tinha desenvolvido uma grande relação de amizade com aqueles quatro casais que frequentavam a sua casa nas tardes de domingo. E fazia questão de falar dos seus novos amigos.

Certo dia, um conhecido disse-lhe que as pessoas que ele recebia em casa não eram amigos, mas sim pessoas que gostavam de churrasco. Propôs-lhe fazer um teste. O meu amigo aceitou.

No domingo seguinte, no final do encontro, o meu amigo comunicou: “Vou precisar da vossa ajuda para um assunto, mas falo convosco no próximo fim de semana”.

No fim de semana seguinte, sobrou muita carne e bebidas pois só apareceu um casal de amigos.

Muitos dos que consideramos amigos não o são. Todos conseguimos perceber isso. Isto acontece por variadíssimas razões. Tirando os oportunistas como nesta história, a nossa vida é feita de pessoas em trânsito. As pessoas casam, mudam de morada, emigram, ganham novos hábitos relacionados com o dinheiro que têm, com a profissão , os gostos, e as amizades, raramente, são resistentes a isso. Podemos tentar contrariar esta teoria com aqueles amigos da vida que fazemos questão de encontrar em jantares que marcamos para o efeito. Mas esses amigos de longa data, serão efetivamente nossos amigos?

Partilham as nossas dores? Estão lá quando precisamos? Temos o à-vontade de lhes pedir ajuda?
Da mesma forma, nós seremos seus amigos na dor ou estaríamos na disposição de os ajudar?

São reflexões que ficam na consciência de cada um.
Com certeza que se houvesse um barómetro da amizade, uma espécie de “amizadometro”, teríamos muitas surpresas.

Defendo, por isso, um tipo de amizade diferente. A amizade não precisa de ser antiga, mas sim genuína. Pode ser as duas coisas, mas não será maior por isso.

A amizade que defendo é uma amizade sem julgamentos e sem necessidade de puxar os galões do passado. Uma amizade pode ser até fruto das circunstâncias atuais. O passado e o futuro são tempos que não podemos controlar.

Ser amigo, para mim, é falar e ser ouvido; é ouvir de forma atenta e ativa aquelas pessoas que encontramos no nosso dia a dia; é partilhar os nossos projetos e ter alguém que se entusiasme com eles; é comemorarmos as vitórias dos outros, sem invejas.

Por fim, a amizade é um teste constante à nossa empatia. A capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e termos esse sentimento vindo dos outros.

Não importa ter velhos amigos, mas sim amigos que se renovem todos os dias.